Prezados Senhores,

Sou assinante do jornal FOLHA DE SÃO PAULO e, como cidadão jauense, mas principalmente em nome da verdade histórica, gostaria de tecer alguns comentários sobre texto publicado no caderno "Mais!" de 17 de setembro de 2000 (capa e mais 10 páginas), a respeito do lançamento da biografia do aviador norte-americano Charles A. Lindbergh Jr.

NÃO É VERDADE que Charles Lindbergh tenha sido, conforme palavras transcritas do próprio texto, "o primeiro homem a cruzar o oceano Atlântico em um avião". No momento em que o piloto norte-americano "se preparava para testar o avião Spirit of St. Louis, em maio de 1927" (legenda da foto da página 4 do citado caderno), o aviador brasileiro e jauense João Ribeiro de Barros (1900-1947) já havia COMPLETADO seu histórico reide sobre o oceano Atlântico.

O vôo do piloto brasileiro, a bordo do hidroavião italiano Savoia Marchetti S-55, denominado "JAHÚ" em homenagem à sua cidade natal, foi previsto para ser realizado e em 2 etapas:

1) O "transporte" do hidroavião até a posição geográfica-terrestre mais próxima possível do Brasil. Esta etapa (COM ESCALAS) teve início em Gênova, na Itália, em outubro de 1926, e foi concluída com a chegada do "JAHÚ" ao arquipélago de Cabo Verde, em novembro daquele mesmo ano.

2) A travessia do Oceano Atlântico, em vôo direto, SEM ESCALAS, realizada entre 04h45 (horário da partida de Porto Praia, Cabo Verde) e 14h30 (horário da amerissagem no arquipélago de Fernando de Noronha) do dia 28 de abril de 1927.

Uma terceira etapa complementar ainda pode ser considerada, já que o Comandante Ribeiro de Barros e sua equipe iriam concluir o vôo em Santo Amaro (SP), partindo de Fernando de Noronha e com escalas em Natal, Recife, Salvador, Rio de Janeiro. Eis porque alguns historiadores e enciclopedistas, ficaram com a imagem menos exata sobre o vôo do "JAHÚ", supondo que ele teria sido efetuado com inúmeras escalas. Porém esta etapa constituiu-se apenas em atendimento às "Comissões de Festejos" e à consagração pública dos tripulantes, os quais inclusive foram recebidos pelo então presidente Washington Luis no Palácio do Catete (RJ).

Ainda sem desmerecer o feito do piloto norte-americano e, muito menos o do meu conterrâneo do qual muito me orgulho, vale lembrar que no ano de 1922 os pilotos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral JÁ HAVIAM realizado a travessia do Oceano Atlântico, unindo Europa (Lisboa) e América do Sul (Rio de Janeiro), tornando-se, ESTES SIM, os primeiros homens a cruzar o oceano Atlântico em um avião. Estendendo esta idéia, podemos afirmar que o primeiro AMERICANO a cruzar o Atlântico foi realmente João Ribeiro de Barros, hoje patrono do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER). A Charles Lindbergh caberia o título de primeiro NORTE-AMERICANO a realizar tal feito ou, se desejarem, o primeiro homem a cruzar o ATLÂNTICO NORTE sem escalas.

Não quero entrar no mérito das diferenças das condições destes dois últimos vôos, uma vez que o piloto brasileiro teve toda sorte de adversidades (sabotagem, traição, doença, etc.), enquanto o aviador norte-americano cumpriu seu feito contando com apoio governamental de seu país e inclusive com direito a prêmio em dinheiro de, se não me engano, US$ 25,000.00.

Para finalizar, gostaria de pedir-lhes que não se repita com este caso, obviamente guardadas as devidas proporções, a "falha" do jornal FOLHA DE SÃO PAULO quando, traduzindo edição especial da revista TIME com as mais importantes personalidades do século XX, omitiu-se quanto ao verdadeiro inventor do avião.

Grato pela atenção,

Atenciosamente,

Roberto Fernando Nascimben Junior

 

PS - À Prefeitura Municipal de JAHÚ, à Fundação Educacional de JAHÚ, ao INCAER (Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica) e ao jornalista José Henrique Teixeira, que recebem cópia deste, solicito a possibilidade de verificarem os dados históricos contidos acima. A este último, solicito ainda o reenvio deste à redação do jornal Comércio do JAHÚ, que muito tem colaborado para o resgate da memória do piloto jauense e cuja edição histórica de 15/08/2000 serviu-me de base para muitas informações aqui citadas.